Num olhar mais profundo do que foi e são as Misericórdias, deparamo-nos com factos pouco usuais para os dias de hoje. Talvez a era tecnológica nos faça esquecer o dia de ontem, pois a quantidade de informação que nos entra em casa e a através do smartphone é-nos dada ao minuto. A notícia do momento sobrepõe à anterior a uma velocidade estonteante, nunca antes imaginada. Mas as Misericórdias têm uma longa história, talvez a mais velha das Instituições Portuguesas.
A nossa fundação remonta ao ano de 1504, ou seja foi fundada há mais de 500 anos, sempre com o mesmo objetivo. Servir os mais necessitados, através das Obras de Misericórdia quer Corporais quer Espirituais. Este período tão longo, sem interregno, desenvolvido por trabalhadores e voluntários, dá-nos muito que pensar. Como foi possível? A nossa génese, o nosso ADN, nos momentos difíceis, foi sempre de solidariedade e assim será no futuro.
Na tese efectuada pelo escritor Fernando da Silva Correia, que se baseou na análise a uma das obras do polígrafo Costa Goodolfim, a Misericórdia de Abrantes faz parte das sessenta e uma que a Rainha D. Leonor fundou, considerando-se, deste modo, como data da fundação, o ano de 1504. Num outro documento que faz parte do historial da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, conforme alvará de 21 de Março de 1532 do Infante D. Fernando, por ele assinado, é ordenada a anexação do Hospital de Abrantes à Santa Casa da Misericórdia, “determinando que o Provedor e oficiais da Santa Casa, elegessem, entre si, um recebedor que aceitasse todas as coisas que no Hospital houvesse e um escrivão que delas fizesse termo de recebimento”.
Em 1483 D. Lopo pede ao Rei, que o autorize a fazer um hospital no local do Celeiro; Em 1488, o Hospital do Salvador estava concluído, dado que no Alvará de D. João III de 3 de Março, ordena-se que todos os hospitais da região fossem anexados ao que fundara D. Lopo. Os finais do século XV caracterizaram-se por uma centralização da assistência, com a criação de grandes hospitais, que passaram a funcionar como centros de saúde, com pessoal especializado, não esquecendo, no entanto, a tradição do apoio aos enjeitados, idosos e pobres itinerantes. A centralização dos hospitais veio acompanhar a centralização e afirmação do poder real, tanto em Portugal como noutros países da Europa.
Após a entrega do Hospital do Salvador à Santa Casa da Misericórdia, conforme alvará do Infante D. Fernando, filho do rei D. Manuel I, a sua acção centrou-se, fundamentalmente, no campo da prestação de cuidados de saúde, assentando os serviços no espírito de misericórdia da Irmandade, com a colaboração de senhoras que faziam serviços de enfermagem e de todo o pessoal inerente à vida do hospital. Com a conjuntura política que teve início no ano de 1975 e com a nacionalização do Hospital do Salvador, a Santa Casa da Misericórdia de Abrantes viu-se privada do referido Hospital e de todos os seus pertences, iniciando a partir desse período uma profunda remodelação, desenvolvendo outras respostas sociais, nomeadamente o Lar de Idosos, que foi construído no local onde existira, durante dezenas de anos, o seu Cine-Teatro, bem como a Creche e Jardim de Infância. Com a restituição do Hospital do Salvador, em 1984, a Mesa Administrativa iniciou o trabalho de aí ser instalado o seu Lar de Idosos, procurando que, concomitantemente ao aumento da oferta de camas, a melhoria do atendimento em Centro de Dia e da qualidade do Apoio Domiciliário fossem uma realidade.